sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Raridade




Brilhante raro

da minha coleção

de sonhos


É você mesmo?


Sinto a brisa acariciar


a face deste átimo 


Em qual parte


da conversa 


paramos

na vez pretérita?


Temos pouco tempo


para  tecer as nossas


lembranças


Suas palavras


 alimentam



minha  inspiração


A despedida


se aproxima


e  me leva  


para a terra

do esquecimento


Aceite meu carinho


com aroma de cafuné


Outro dia retornarei

e continuaremos


este  momento onírico

22/9/10 & 29/10/10

Eliana Pichinine




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Confusão


 Meu coração

é teu coração?

Quem me reflexa pensamentos?

Quem me presta
esta paixão

sem raízes?

Por que muda meu traje
de cores?

Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?

Irmão, és tu

ou sou eu?

E estas mãos tão frias
são daquele?

Vejo-me pelos ocasos,

e um formigueiro de gente

anda por meu coração.


Fonte: http://www.citador.pt/poemas/confusao-federico-garcia-lorca
Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O tempo


Que fosse
                  apenas mais um dia
                  apenas mais uma vez
                  sem pretensão de futuro

Que fôssemos
                           felizes
                          capazes de  viver
                          envolvidos num laço forte
                          engolidos pelo amor

Mas fomos desatados
                                       pela vida
                                      pelo tempo


Ficamos próximos
                                por momentos
                                por lembranças
                                por sentimentos

Corremos
              de nós
              por nós

Foi
      um corte
      uma dor

Senti a perda
Tremi de saudade

Sumi com os espinhos
Carreguei  a alegria


Sabia do fim
e o conheci

Década de 90 & 21/5/10 & 30/9/10
Eliana Pichinine

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Avesso

 
 Certas
  palavras
enrubesceram

[certos]
olhares
virginais

Certos
olhares
enrubesceram

[certas]
palavras
virginais
16/8/10 & 26/8/10
Eliana Pichinine

sábado, 17 de dezembro de 2011

Infinito Particular

 

Eis o melhor e o pior de mim

O meu termômetro, o meu quilate

Vem, cara, me retrate

Não é impossível

Eu não sou difícil de ler

Faça sua parte

Eu sou daqui, eu não sou de Marte

Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim

Só não se perca ao entrar

No meu infinito particular

Em alguns instantes

Sou pequenina e também gigante

Vem, cara, se declara

O mundo é portátil

Pra quem não tem nada a esconder

Olha minha cara

É só mistério, não tem segredo

Vem cá, não tenha medo

A água é potável

Daqui você pode beber

Só não se perca ao entrar

No meu infinito particular

Marisa Monte

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Foi um lindo romance



 

Foi um lindo romance, reconheço,
Lindo como jóia de alto preço,
Este romance que não escrevi.
Foi síntese de todos os romances,
Com todas as cores e todas as nuances
Dos sonhos que até hoje construí.

Meu romance tem páginas sublimes
De renúncias, heroísmos, traições e crimes;
Tem palavras de estranha suavidade;
Tem gritos de revolta e de ansiedade,
Resumo do desejo e da ambição -;
Tem confissões de amor sussurradas com calma,
Tem o tom muito da alma e do coração.

Se alguém pudesse ler encontraria
Toda meiguice, toda ternura, toda covardia
Das palavras de amor que eu não te disse.

Se alguém pudesse ler encontraria escrita
Numa página de ouro esta cruel verdade:
Tu foste para mim esta coisa tão bonita
Que todos chamam de felicidade.
Foi um lindo romance, reconheço,
Por isso de joelhos agradeço
Me deixares vivê-lo até o fim
Anônimo e feliz... Com toda discrição.
Sem a glória de ter ouvido sim,
Nem a mágoa de ter ouvido não.



Mário Lago



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Minha vida foi isso o tempo todo


Recomeçar ainda que partido;
Refazer o horizonte a cada passo;
Buscar razões no que perdeu sentido;
Mover-me sempre, embora o pouco espaço;

Compreender todas as vozes mudas,
Perdido entre o não dito e o não pensado;
Procurar no vazio alguma ajuda;
Repisar mil caminhos já pisados;

Falar sem nunca ter ouvido um grito
De aplauso, de protesto ou xingamento;
Pensar que era de céu o chão de lodo;

Os pés na terra, os olhos no infinito.
Sonhando estar lá longe o meu momento...
Minha vida foi isso o tempo todo.


Mario Lago
http://www.mariolago.com.br