sexta-feira, 18 de novembro de 2016

caleidoscópio


pronto 
pra
deixar 
de 
ser

cada
olhar
deixei
o elefante branco
ficar cinza
e tirei
os tapetes da sala
pra não esconder a poeira
lua é lua
sol é sol
eclipse
é exceção
canoa furada
é uma opção?
Eliana Pichinine
coração
de
palavra
cumpre
cada
batida
Eliana Pichinine

 certas

dores

na

alma

arranham

a garganta

como

espinha

de

peixe

cabisbaixa

fitando

o rio

pesquei

a lua

Sexo



nexo
entre
os
corpos
Godê



                              (Para Miriam Pichinine)
do beco sem saída
fiz saia godê
e viva
girei a roda!
(In: MACARÉU, 2015)

 vesti o sobretudo

e falei sobre tudo

aquilo que cabia

em quase nada


a incompletude

acolhe meus vãos


 senti frio
em plena estação
das flores
teus ombros
não germinavam mais
Eliana Pichinine
adjetivos

serão

poucos

diante

do 

substantivo

amor

que 

sinto

por

ti
Eliana Pichinine

Íntimo



eu sempre
gostei de dançar
mesmo quando
tudo rodava
menos eu
Eliana Pichinine

NOVAMENTE



Se saudade tivesse cor...
Eu visitaria
o rosado daquele beijo
o carmim daquela paixão
o dourado daquele passeio
o branco daquele susto
o brilho daqueles dias
A transparência da sua alma
...
Se saudade tivesse sabor...
Eu visitaria
o sal daquele mar
o doce daquele encontro
o suspiro daquele momento
o mel daquela risada
o casadinho daquele olhar
A sua magia açucarada
Eliana Pichinine
In: PICHININE, Eliana - Retrós, Ed. Multifoco, Rio de Janeiro, 2011.

Sol



dia quente
água fria
piscina
repleta
de
peixes
dourados
Eliana Pichinine
era quase chuva

naquele 

quase encontro

em que o teu olhar

quase beijo

ficou no ar

para os dias

de coturno

encravado 

no peito

trouxe a leveza 

daqueles dias 

repletos de amor

lavoura



enquanto em casa

eu descascava inhames

quantas peles

descascavam sob o sol?



eu seria

a lua
só pra 

satisfazer 

a noite

que está 

brilhando

em teu 

olhar
o teu ás

é de qual naipe? 

Eliana Pichinine
presa 

no vagão

fingia 

não sentir

agonia

o trem

rugia

  disse tudo

com aquele

olhar de imensidão

o

hábito

saiu sozinho


fez tudo

de novo

Pirão


com

espinha

e tudo

fiz pirão

daquele 

poema

sobre 

peixe

o

que 

sobrou
deixei

pro

pescador

contar

Dias




às vezes
ilha
às vezes
pilha
às vezes
trilha
aquele sorriso

de menino feliz

cabe aqui

toda vez 

que me apaixono

por você


 a avenida continua ali

assim como a casa de festas

na esquina

e a lanchonete em frente ao rio

mas o alvo mudou
hoje

outra família

perdeu um ente querido

a calçada ficou avermelhada

Juba




a pulga saltita

como se estivesse

na cama elástica

suga aos poucos

o sangue

do hospedeiro

e diverte-se

sabe aproveitar

o tempo

de vida 

que lhe resta

Pontadas


pontada nos olhos:

sono perdido

pontada no olhar:

sonho perdido

Pendências


água-viva

pulsando

no peito

espinha

de peixe

atravessando

a garganta

mãos trêmulas

abraço desmedido

fera acuada

espreita as lesões

lambe cada ferida

sabe a hora de recuar


In: PICHININE, Eliana - Macaréu, Editora Vidráguas, Porto Alegre, 2015.

 você?

escuto

com

a

pele


sou finita

e minhas 

ilusões

também

Eliana Pichinine

Plantando bananeira


a raiz 

do 

problema

estava 

de cabeça 

pra baixo

(In: Macaréu)



amor

sem palavras

faz

leitura corporal


espio

seus

olhos

encontro

os 

meus


senti

um

pouco

de tudo

quando 

sua mão

beijou 

a minha

Apenas


tomara 

que seja

(apenas)

impressão

tomara

que seja

(apenas)

rouquidão
de um suspiro
aturdido

que 

(apenas)

confundiu

o brilho da manhã

com o teu olhar

demore pouco

chegue perto

dance tuas mãos

sobre meus segredos

HORIZONTAL


Quando fui ao chão

o mundo ficou

de certa forma

horizontal

Eliana Pichinine

in: PICHININE, Eliana - Retrós, Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

parei 

de 

pedir

asas

quero 

aprender


andar

Cobra criada (fajuta)



Logo 

que 

a

danada

da recaída

chegou

voltei

pro

jardim

de 

infância

do 

amor

Eliana Pichinine

Filhos


um menino

e

uma menina:

flores

do

meu

jardim

Eliana Pichinine

saudade




quando
a lembrança
finca os pés...
Eliana Pichinine
pelo avesso

a perspectiva 

é outra

vértebras e órgãos

aparecem com suas cores

as sinapses são explícitas

sentem o lado de fora

conversam com o vento

e deitam na poeira dos dias

(tudo em carne viva e atenta)

Bem-te-vis


versos

empoleirados

cantavam

sob a luz

do teu olhar

Eliana Pichinine
certas palavras

não sabem dizer


  nem sempre 

o cacho é de uva

o canto é de sereia

o laço é de fita

o beijo é de Klimt

o olhar é de Medusa 

o retrato é de Dorian Gray



  delimitei o perímetro do dia

acordei com o pé direito (do quarto)

olhando pra mim

fui logo dizendo que sou canhota



o meu coração

é tátil

não encostes

o teu olhar

minha pele sedenta

nadou em tuas mãos

Eliana Pichinine
revi minhas folhagens

deixando o outono brincar

Eliana Pichinine

Ponto de Interrogação


mudar

o foco

ajuda 

na aparição

de outros sinais

Trocando de lugar




chutei

o chão

(pensou o balde)


  até certo ponto

até certa vírgula

tudo parecia caminhar

um

poema

sobre


outro:

nós dois

adjetivos serão poucos

diante do substantivo

amor que sinto

por ti

Eliana Pichinine


chão 

quieto

escuta

o silêncio

balançando

a cadeira